Que minhas orações alcancem o seu coração.
Querido irmão,
Como você tem estado?
Passei alguns
anos fazendo essa mesma pergunta de forma silenciosa, sem querer dar o braço a
torcer, mantendo a devida distância, mas não por orgulho e sim por ter
acreditado que na minha tentativa de ajudar, acabei por magoar ainda mais você.
E talvez, de fato, eu tenha magoado. Perdão por me exceder e não ter te
escutado naquela época, e obrigada por me dar a chance de estar aqui com você
novamente.
Já pensou em
como é incomum achar tanto conforto e abrigo em alguém que jamais vi, mas que
está profundamente cravado no meu coração? Você é essa pessoa amável,
necessária e querida, senhor Euller. Sei bem que nunca fomos de dizer palavras
gentis e que nossos diálogos sempre foram muito ácidos, mas o tempo passou e
fez a gente amadurecer. Por muitas vezes, muitas vezes mesmo, de um jeito
doloroso e difícil de superar, mas cá estamos. Enfim, o que estou tentando
dizer é que pelo menos hoje, por meio dessas palavras desencontradas e
controversas, eu irei me expressar a você de forma respeitosa, séria e profunda,
porque acabei aprendendo que se esconder atrás do sarcasmo é um jeito muito
eficiente de deixar de dizer as coisas que realmente importam.
Eu sempre quis
estar aí por você, sempre quis puxar essa orelha pessoalmente e sobretudo, eu
queria ter sido o abraço de conforto nos dias difíceis. Eu queria estar aí para
comemorar suas vitórias e dizer “tudo bem” quando as coisas não saíssem do
jeito que você esperava. Provavelmente teríamos brigado muito mais e até saído
no soco, mas me conhecendo, no final eu seria aquela idiota chorona, que mesmo
morrendo de ódio te pediria desculpas, porque é mais fácil engolir o orgulho do
que conviver com a sua ausência.
Orei
ao Deus no qual você não acredita para que Ele cuidasse de você quando eu não pude,
porque essa, meu irmão, é a única parte de mim que não pode ser chamada de
mentirosa, que aflora em meio a lágrimas e palavras sussurradas e que são ouvidas,
uma a uma, mesmo quando não mereço. É como uma linguagem de amor que ofereço em
secreto com muita verdade, com uma sinceridade que derruba os muros que ergo
para esconder as minhas muitas fragilidades. Sou uma pessoa preguiçosa,
rancorosa e calada. Há tanta escuridão aqui dentro, tantas dores que nunca
consegui superar e ódios que não consigo enterrar... Eu não posso ser hipócrita
e dizer que sou um exemplo de bondade e empatia, porque eu definitivamente não
tenho um coração inteiramente bom. E por esse mesmo motivo é que acaba sendo
tão difícil me apresentar a Deus. Mas sabe irmão, eram só nesses momentos, que
eu pedia ao Pai que protegesse você, que eu conseguia colocar meu coração no
modo silencioso e continuar, pois sabia que mesmo sendo essa pessoa tão falha,
minha oração não ficaria sem resposta. E aí está você, meu amigo que é um
pseudo imortal. Você segue acreditando naquilo que quiser, mas eu te amarei com
o meu único lado que presta, esse que encara os próprios demônios, perdoa e
engole o orgulho diante de Deus, para que Ele possa continuar cuidando de você.
Não tenho nada a oferecer, irmão, só esse coração estilhaçado e essa fé maluca,
porque já se passaram alguns anos e nesse meio tempo acabei me despedindo de
muitas pessoas, algumas por escolhas, outras não. Cada partida é uma dor nova
para colecionar, um degrau para superar, um choro que eu tive que conter, mas nessa
vida tão cheia de despedidas, eu nunca me senti sozinha, e quando pensei estar
ou quando não me senti amada, sempre tinha essa presença que não se pode
explicar, mas que chega mansamente em meio a uma tempestade, como chama que
aquece aos poucos e logo faz a alma incinerar. Como explicar esse incêndio que
abranda tempestades? Esse que não precisa de nome para ser reconhecido ou
achado. É um ser muito superior, mas que se fez homem por miseráveis como eu.
Nos meus momentos mais humilhantes, Ele faz eu me lembrar que sou única e
preciosa, e sendo muito sincera, irmão, ninguém nesse mundo foi capaz de fazer
o mesmo por mim, nem eu mesma, nem minha família ou qualquer outro amigo que
tenha passado por essa vida. Acho que no fim, a vida é curta e no fundo sabemos
que estamos correndo contra um tempo cronometrado, o que faz de nós esses seres
perdidos, apressados e incapazes de olhar para o outro de forma integral,
constante e verdadeira. Então, resumindo a missa, sempre que dou uma de chata “crentola”,
na verdade eu só estou tentando te apresentar um amor que não pode ser medido
ou explicado, mas que me faz levantar da cama todos os dias e vencer as dores
que me dizem para desistir. É a força por trás da minha teimosia, é a
persistência que eu mesma não entendo às vezes, mas que está lá, me assegurando
de que eu não sou essa criatura quebrada e sem valor que vejo no espelho, mas
uma filha amada e cuidada. Talvez eu não seja uma das favoritas, mas eu sou a
mais mimada. E aí, talvez você não queira ser filho também, mas nem por isso
está fora do coração DELE. É um amor que não pode ser parado e está à distância
de um chamado sincero, é aquele amor que você merecia conhecer, porque você é
alguém que não abandona, não esquece e até se conforma com amores que nunca
mereceu conhecer, por terem te machucado demais. Você merece um amor ágape para
curar os mundanos que te feriram.
Agora,
eu vou cumprir a minha promessa e fazer aquele texto sobre você. Eu só
precisava dizer mais uma vez que eu te amo e que conheço mais alguém que te ama
também (verdadeiramente e sem desculpas).
Ele se apresenta
como um viajante solitário, como um homem de muitas ideias, muitos destinos e
nenhuma parada. Nunca soube dizer se isso era liberdade ou loucura, mas aos
meus olhos, ele era só um rapaz cheio de coragem, ousadia e estupidez pra dar e
vender. Não se engane, caro leitor, isso não é uma ofensa, na verdade, é um
elogio, um tipo de admiração vinda de uma garota que sempre teve as asas
aparadas e que nunca saboreou do prazer de ir aonde bem entendesse com os
próprios pés.
Vendo-o de
longe, é possível reparar no jeito ácido de falar, na postura fria, nos
pensamentos forçados que o obrigam a ser durão, nas circunstâncias que o fizeram
optar por ser o anti-herói, mas olhando de perto, ele é alguém que sacrifica
muito de si mesmo para salvar os outros. Ele é essa pessoa que vem correndo sem
ser chamado, que não esquece ninguém, seja pelo caminho ou na gaveta de
recordações. Todos estão lá, cada um com seu peso, com sua porção de Euller,
com um pouquinho da coragem e amparo que ele ofereceu e nos fez respirar fundo
mais uma vez, erguer a cabeça e bater de frente com nossas preocupações.
Apesar de ser
tão prestativo, me preocupa o fato de que ele se doou demais, e quando me
refiro a essa entrega, eu acabo por falar de um coração que já foi muito
otimista, apaixonado e cheio de expectativas. Ele diz que não tem mais isso,
que matou as emoções, que trancou todo aquele afeto, amor e desespero abaixo da
terra, e que ali descansa um velho coração que nunca mais poderá bater como
antes. Caro leitor, perdoe a minha opinião sincera, mas que desperdício! Não
posso dizer que o mundo mereça aquele coração, mas você sim o merece. Merece
ter otimismo, merece sentir com intensidade o amor, a raiva e a euforia. Sei
que algumas tristezas parecem ter o papel de nos matar, mas... como é bom
vencer o tempo do deserto, e no final ver que podemos ser maiores do que nossas
dores, mais durões do que imaginamos.
Sobre esse
andarilho solitário, há tanto a escrever, tantas histórias para rascunhar,
tantos caminhos que ele pode escolher viver, que ele planeja percorrer, e o
único desejo dessa autora, é que ele viva cada cena dessa vida em totalidade,
sem precisar abrir mão de nada, nem de si, nem dos sentimentos, das conquistas
ou das lutas que são só dele. Nunca foi do feitio desse homem fugir ou fingir,
e não consigo deixar de me questionar: “Tudo bem mesmo deixar como está?”. De
todo modo, ele ainda é o meu anti-herói!
Hoje, eu só
gostaria que minhas palavras, essas que usei tantas vezes para tirar os
sentimentos que inundavam o meu coração, consigam alcançar esse andarilho, esse
samurai sem espada, lobo sem alcateia. Gostaria que elas fossem guardadas na
alma, como o abraço temporário que um dia ainda irá chegar, como o afago das
horas difíceis que não foi possível dar, como o soco merecido nas horas de insanidade,
como um amor de irmã que permaneceu igual mesmo nos períodos de ausência.
Para ele, caro
leitor, há apenas esse desejo imparável de que o caminho certo seja trilhado,
de que a alma ache descanso em vida, e que a vida seja sentida em cada tom, som
e sensação. Um aventureiro como ele, com tantos feitos, com tanta história, merece
ser visto, lembrado e amado profundamente, tal como ele ousa amar aqueles que
não pôde esquecer, com a obviedade dos raios de sol que aparecerão mais uma
vez, como o ar que infla esses pulmões, como a constância desses batimentos que
fazem o seu sangue pulsar. Que esse ser tão amado, não esqueça da diferença que
ele fez e faz todos os dias, com ou sem as emoções. E só para não perder o
hábito de ser do contra, encerro meu monólogo dizendo que nenhuma tranca é
forte o suficiente para apagar essa essência incomparável de Euller.
Feliz
aniversário, meu amado irmão.


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