Todas as outras dimensões


Nos encontramos na décima avenida, em meio a correria do dia-a-dia, atrasados para o trabalho. Passamos lado a lado sem notar a presença um do outro, mas um sussurro ficou preso no silêncio daquele destino que não se manifestou ao tentar fazer a gente se conhecer. Foi em vão, meio fútil até... imagina conhecer o amor da sua vida encenando um enredo tão clichê?
Novamente eu te vi, estava dentro do vagão e o seu reflexo na janela de repente apareceu. E lá estava você, do outro lado daquelas portas que não se abririam naquela estação. Uma breve visão do rapaz alto que usava moletom e tinha as lentes dos óculos respingadas da chuva fina que caía naquela tarde. É que o destino ainda não estava convencido de que seria uma boa ideia juntar nossas vidas. 
Então, numa tarde de sábado, enquanto se faz aqueles passeios sem destino, esperando encontrar um bom restaurante ou talvez apenas um café onde se possa passar o tempo, a gente se esbarrou. O café estava lotado, a fila tomava o espaço e enquanto você saía, eu tentava entrar. O rápido olhar, que se desfez e depois se refez. Aquela sensação de "eu já te vi em algum lugar" misturada com "melhor não encarar". 
Você jura que a gente se encontrou na exposição do Van Gogh, na sala dos campos de girassóis, mas eu não me lembro de nada daquele dia, nada além da Noite Estrelada. Talvez você estivesse fotografando enquanto eu realizava o meu ritual pessoal de ler cada plaquinha e tentar decorar cada data. 
Talvez naquela viagem? O plano era andar de Maria Fumaça, mas o trilho estava interditado e então cancelaram o passeio pelo qual esperei anos, mas que para você era irrelevante, afinal, só estava de passagem com o seu irmão. 
E se tivesse sido no Natal? Aquele Natal em que fui para o Sul e finalmente conheci a decoração aclamada por todo o país. Canela e Gramado. Você por acaso não seria aquele jovem que furou a fila para pedir informações sobre um cardápio, seria? Não... Talvez não, mas e se fosse o rapaz que desceu a rua correndo segurando a mão de uma menina loira? Provavelmente não seria a melhor hora de sentir que a gente estivesse predestinado.
Poderia jurar que comentei no mesmo post do Instagram em que você começou uma discussão, mas novamente, é só impressão. 
Então talvez seja naquele jogo online em que ambos temos contas de anos, que a probabilidade de ter jogado no mesmo squad tenha sido altíssima, mas que ainda não nos adicionamos, porque a gente só não se conhece e o máximo de diálogo que tivemos foi "planta a bomba". 
E assim a gente continua, repetindo os nossos desencontros e criando várias dimensões até que o destino diga "Agora é a hora e o lugar!". 
Certamente estamos de acordo que estivemos juntos em várias vidas, mas que essa foi aquela em que não conseguimos criar uma trajetória juntos.
Ainda assim prazer em conhecê-lo, estranho. Sua imagem às vezes visita os meus sonhos, criando falsas memórias de uma voz, de uma silhueta e de um sorriso que eu nunca conheci. É realmente memorável entender que o amor que não acontece também é aquele que nunca encara um fim. 
E com profunda afeição me despeço dessa anomalia que invade os meus dias e cria filmes inteiros com uma existência que ressoa com a minha, mas que jamais cruzará o mesmo caminho. 

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